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Nutrimed

A importância subestimada da Nutrição no período pós-unidade de terapia intensiva

Rafaela Batista Coutinho atua como Nutricionista Clínica do Hospital Ferreira Machado e da PRONUT/EMNT do Hospital Geral Dr. Beda, é Mestre em Nutrição Clínica – INJC/UFRJ, Pós-Graduada em Nutrição Clínica -CENC/UFRJ, Pós-Graduada em Nutrição Clínica Ortomolecular, Biofuncional e Fitoterapia – UniRedentor/NutMed e Pós-Graduada em Terapia Nutricional do adulto – CETNUT/UFRJ.

 

Os avanços no conhecimento e nas tecnologias médicas impactaram na redução da mortalidade em unidade de terapia intensiva (UTI), contudo após a alta instaura-se uma longa e árdua jornada de recuperação que pode durar anos. Os sobreviventes da UTI frequentemente enfrentam comprometimento cognitivo, psicológico e funcional grave e prolongado, que interfere na recuperação a curto e longo prazo, na capacidade de retornar ao trabalho e na qualidade de vida; muitos jamais retornarão às suas atividades de vida diária. A síndrome pós-tratamento intensivo (PICS) é o termo que engloba problemas novos ou agravados, no estado de saúde física, cognitiva ou mental, que surgem após uma doença crítica e persistem além da hospitalização por cuidados agudos.

 

A doença aguda desencadeia uma resposta inflamatória que intensifica o catabolismo, a resistência à insulina e a resistência anabólica. O aumento da produção de citocinas e mediadores pró-inflamatórios se correlaciona com o aumento da proteólise, resultando na perda de massa corporal magra, na perda da capacidade funcional e da redução função imunológica, condiçõesassociadas a desnutrição. A perda de massa muscular, indicador característico da desnutrição, é um sintoma clássico da PICS.

 

A maioria dos pacientes graves que necessitam de ventilação mecânica recebe alta da UTI com algum grau de desnutrição. Pesquisas têm demonstrado que pacientes com dieta via oral exclusiva nas fases iniciais da recuperação na enfermaria consomem entre 55 e 75% das calorias e 27–74% da proteína prescritas, contribuindo ainda mais para os déficits nutricionais comumente acumulados na UTI. Esses dados indicam que a retirada precoce da sonda nasoenteral pode pioraro estado nutricional e que a utilização de suplemento nutricional oral deve ser considerada. É importante destacar que a transição entre as vias enteral e oral deve ser um processo gradual e com o monitoramento preciso da aceitação e tolerância da dieta a fim de assegurar o aporte nutricional adequado.

 

Não há recomendações ou diretrizes sobre ingestão de energia e proteína na fase pós-UTI,entretanto garantir a ingestão calórica e proteica ideal é fundamental para melhorar a recuperação da massa muscular funcional e evitar perdas futuras. Estudos com calorimetria indireta durante a fase de recuperação demonstram aumento acentuado nas necessidades metabólicas, com o gasto energético total até 1,7 vezes maior do que o gasto energético de repouso. Considerando que pacientes pós-UTI são geralmente mais velhos, frágeis e apresentam resistência anabólica, sugere-se também que a oferta proteica seja aumentada, 1,5–2,5 g/kg/dia.

 

A inadequação da oferta de calorias e proteínas no pós-UTI e a falta definição de metas nutricionais mais assertivas nesta fase da doença crítica prejudicam o estado nutricional dos pacientes. Entre os fatores que corroboram para a ocorrência de desnutrição neste público, destacam-se: fisiológicos (falta de apetite, saciedade precoce, alterações no paladar, náusea e vômito); funcionais (disfagia orofaríngea relacionada à intubação orotraqueal e fraqueza adquirida na UTI); psicológicos (transtornos de saúde mental, incluindo depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático); organizacionais (falta de flexibilidade com os horários das refeições, generalização de protocolos de alimentação para todos os pacientes hospitalizados);  conhecimento do profissional de saúde (planos de cuidados nutricionais mal comunicados/estabelecidos entre os prestadores, falta de conhecimento sobre a importância cuidados nutricionais na evolução do paciente).

 

Sabe-se que a maioria dos sobreviventes da UTI estão em risco nutricional ou desnutridos, apresentando tempo de internação prolongado, maior número de complicações, alto custo da internação e maior risco de mortalidade. Neste contexto, destaca-se a Nutrição como um dos pilares do processo de reabilitação e a importância da adoção de estratégias de cuidado com objetivo de minimizar a PICS, auxiliando na recuperação física e neuropsicológica, e melhoria da qualidade de vida dos pacientes.

 

 

 

Referências:

1. MOISEY, Lesley L.; MERRIWEATHER, Judith L.; DROVER, John W. The role of nutrition rehabilitation in the recovery of survivors of critical illness: underrecognized and underappreciated. Critical Care, v. 26, n. 1, p. 270, 2022.
2. RIDLEY, Emma J. et al. What happens to nutrition intake in the post–intensive care unit hospitalization period? an observational cohort study in critically ill adults. Journal ofParenteral and Enteral Nutrition, v. 43, n. 1, p. 88-95, 2019.
3. VAN ZANTEN, Arthur Raymond Hubert; DE WAELE, Elisabeth; WISCHMEYER, Paul Edmund. Nutrition therapy and critical illness: practical guidance for the ICU, post-ICU, and long-term convalescence phases. Critical Care, v. 23, p. 1-10, 2019.

 

 

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