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Nutrimed

Dissipando mitos sobre o uso da Nutrição Parenteral

 

A nutrição parenteral (NP), uma das aquisições mais notáveis da medicina moderna, atua como uma modalidade da terapia nutricional que salva e/ ou mantém vidas e, pode ser iniciada para pacientes de todas as faixas etárias, quando as necessidades nutricionais não são atingidas pela via oral ou via enteral.

Embora sustente a vida, a NP possui risco de efeitos colaterais de curto ou longo prazo. Para maior segurança e eficácia da NP, deve-se aderir às boas práticas e realizar um monitoramento atento.

Ainda assim, apesar dos fatos, vários mitos sobre o início e a administração segura de NP ainda existem.

Este documento foi elaborado pela Sociedade Americana de Nutrição Parenteral e Enteral (ASPEN), para dissipar mitos relacionados às condições dos pacientes, componentes da NP, estabilidade e compatibilidade e administração.

 

Mitos relacionados ao Paciente

  • Pacientes Adultos com hiperglicemia não devem nunca ser iniciados na NP¹´²:
    • Garantir o início cuidadoso de NP em pacientes adultos com hiperglicemia (glicose > 180 mg/ dL).

    • As complicações metabólicas podem ser prevenidas através da implementação das seguintes estratégias:

      • Iniciar a NP com baixa dose de glicose, ajustada para hiperglicemia.
      • Progressão mais conservadora na NP, com monitoramento atento aos dados laboratoriais e pronta intervenção, se indicado.
      • Considerar o uso diário de emulsão lipídica (EL) para ofertar calorias não provenientes da glicose.
      • Usar insulina, de acordo com os protocolos da instituição, para controlar os níveis de glicose.

 

  • Pacientes Adultos com hipertrigliceridemia não devem ser iniciados na NP¹.
    • Garantir o início cuidadoso de NP em pacientes adultos com hipertrigliceridemia (triglicérides sérico > 200 mg/ dL).

    • As complicações metabólicas podem ser prevenidas através da implementação das seguintes estratégias:

      • Iniciar a NP com baixas doses de EL para hipertrigliceridemia basal.
      • Progressão da NP mais conservadora, com monitoramento atento aos dados laboratoriais e pronta intervenção, se indicado.

 

  • NP causa infecções relacionadas ao cateter central.¹
    • A adesão e a utilização de um conjunto de procedimentos de cuidados, baseados em evidências, para inserção e manutenção do cateter venoso central, as melhorias nos dispositivos de cuidados com o cateter e o controle da glicose no sangue reduziram a taxas de infecções ao longo do tempo, restringindo um dos mais comuns e sérios eventos adversos associados com a administração da NP.

      As técnicas para prevenção de infecção incluem:

      • Procedimentos de preparação asséptica
      • Adesão aos padrões e políticas de cuidados com o acesso venoso e equipos
      • Gestão do controle de infeção e sepse
      • Estratégias nutricionais e controle da glicose

 

  • Pacientes não devem iniciar a NP domiciliar sem antes ter iniciado a NP no hospital¹.
    • Pacientes adultos podem iniciar, com segurança, a NP domiciliar quando as etapas abaixo forem seguidas:

      • Estabelecer as políticas institucionais que delineiam as circunstâncias onde a NP domiciliar (NPD) pode ocorrer.
      • Delinear os critérios de elegibilidade, centrados no paciente, para iniciar a NPD.
      • Desenvolver protocolos e procedimentos rigorosos para iniciar a NP, monitorar as respostas à terapia, a educação do paciente e, o registro dos resultados.
      • Conduzir uma avaliação médica, clínica e psicossocial do paciente candidato a fim de verificar fatores de risco para eventos adversos relacionados com o início da NPD.
      • Considerar iniciar terapia de NPD somente quando a avaliação confirmar que os benefícios são maiores do que os riscos.

 

  • A NP não é indicada até que o paciente adulto com desnutrição esteja em dieta zero por 7 dias¹.

Em pacientes adultos com desnutrição ou em risco de desnutrição E os pacientes que possuem contraindicação para a Nutrição Enteral (NE), presença de intolerância à NE ou se há função intestinal insuficiente para manter ou restaurar o estado nutricional, a NP deve ser iniciada precocemente:

    • Risco nutricional: 3-5 dias
    • Desnutrição moderada ou grave: assim que for viável
        • Entretanto, é aceitável aguardar 7 dias para iniciar a NP em pacientes estáveis e bem nutridos se forem capazes de atingir >50% das necessidades nutricionais pela via oral ou através da nutrição enteral.
        • O início da NP deve ser postergado em pacientes com grave instabilidade metabólica até que as condições do paciente melhorem.

 

  • Pacientes com hiponatremia sempre necessitam de doses altas de sódio na NP³´⁴

    • Altas doses de sódio, na presença de hiponatremia, nem sempre são necessárias. A etiologia da hiponatremia deve ser estabelecida a fim de guiar as dosagens de sódio.
      • Se a etiologia da hiponatremia for por sobrecarga volumétrica, adicionar mais sódio pode piorar a sobrecarga e a hiponatremia.
      • Pacientes podem necessitar de mais sódio na NP se tiverem grandes perdas através de estomas, diarreia ou perdas gástricas,
      • A dosagem padrão de sódio da ASPEN para as necessidades de pacientes adultos = 1-2 mEq/ kg/ dia (doses para Pediatria variam de acordo com a faixa etária).

 

  • Pacientes com níveis normais de cálcio não necessitam de cálcio na NP.³´⁴
    • Os ossos liberam cálcio livre em resposta à diminuição dos níveis séricos; a omissão prolongada de cálcio na NP contribui para a progressão da doença óssea metabólica.
    • Os padrões para dosagens de cálcio/ ASPEN, em NP para pacientes adultos = 10-15mEq/ dia (doses para pediatria variam de acordo com a faixa etária).
    • Realizar o monitoramento adequado dos níveis de cálcio, de acordo com os protocolos da instituição.

Mitos relacionados à Compatibilidade e Estabilidade

 

  • Utilizar e aplicar a literatura existente, sobre compatibilidade e estabilidade, aos produtos utilizados⁵.
    • A literatura existente é baseada em determinados produtos e não deve ser extrapolada para os novos produtos disponíveis no mercado, atualmente.
    • Para avaliação da estabilidade ou compatibilidade, verificar as informações dos produtos utilizados. Entrar em contato com os fabricantes para detalhamentos.

 

  • A validade é baseada apenas na esterilidade⁹.
    • Para NP, a data de validade deve ser baseada na compatibilidade, estabilidade e esterilidade:
      • Apesar de não ser destacado na USP<797>, à complexidade da NP atribui-se a Categoria de Preparação Estéril (CSP), ou seja, de medicações preparadas em ambientes classificado, de Salas Limpas, utilizando técnicas assépticas para garantir que estejam livres de microorganismos.
      • Diferente de outros produtos da Categoria CPSs 2, onde a data de validade baseia-se apenas na esterilidade, para a NP, além da esterilidade, a data de validade deve levar em consideração a estabilidade física e química (compatibilidade e estabilidade).
      • Para NP, a data de validade da Tabela 13 da USP <797> não deve ser seguida; uma outra validade deve ser atribuída onde considere-se a estabilidade física e química.

 

Mitos relacionados à Administração

  • A NP deve sempre ser infundida através de cateter venoso central²´⁶´¹².
    • A NP pode ser infundida através de acesso venoso central ou periférico, dependendo da osmolaridade final da mistura, entretanto a via central é o acesso de preferência.
    • Para utilização de acesso periférico, a NP não pode exceder 900 mOsm/ L.
    • Evite utilizar o termo “NPT, nutrição parenteral total”. Este termo é antiquado.
    • Diga NP Central ou NP Periférica, para evitar confusão em relação ao acesso de infusão.
    • Leia no rótulo qual o acesso venoso deve ser utilizado, cateter central ou periférico – esta especificação deve sempre estar descrita no rótulo.
    • As emulsões lipídicas podem ser infundidas através de ambos acessos venosos, central e periférico.

 

  • O uso de filtro de infusão não é necessário na administração da NP¹².
    • É recomendado a utilização de filtros de infusão para a administração de NP.
      • O uso de vários filtros para a administração caiu em desuso; a utilização de um único filtro de infusão, ao invés de vários filtros, é uma prática mais simples e pode aumentar a adesão à utilização do filtro.
      • Um único filtro de 1,2 micras é recomendado durante a infusão de todos os tipos de formulações de NP.
      • Um único filtro de 1,2 micras pode prevenir a infusão de partículas >2 micras, que são de alto risco se infundidas.
      • Posicione o filtro em linha o mais próximo ao eixo do cateter.

 

  • As emulsões lipídicas (EL) podem ser infundidas em Y, com a NP 2×1, por 24h⁶´⁷.
    • Se a NP contiver EL (NP 3×1), a NP pode ser infundida em até 24h.
    • Se a EL é infundida em separado, em Y com uma NP 2×1, seja em uma bolsa manipulada ou no recipiente original, o tempo máximo de infusão é limitado em 12 horas. Isto deve-se ao risco aumentado de contaminação microbiana devido à natureza isotônica das EL.
    • Se, clinicamente for necessário mais de 12h de infusão de EL (ex.: pacientes pediátricos e neonatais), a dose diária deve ser dividida em duas bolsas iguais e a administração deve ser de 12h para cada uma.

 

 

Mitos relacionados aos Componentes

  • O Gluconato de Cálcio e o Cloreto de Cálcio são intercambiáveis⁵.
    • O Gluconato de Cálcio (GlCa) e o Cloreto de Cálcio (CaCl2) NÃO são intercambiáveis.
    • O GlCa tem o pH de 6,0 a 8,2 e sofre menos dissociação em água do que o CaCl2, resultando em menos cálcio livre para formar fosfato de cálcio.

 

  • Todas as Emulsões Lipídicas (EL) são criadas iguais⁶´⁷.
    • Todas as ELs são fontes de calorias e ácidos graxos essenciais.
    • Existem quatro ELs aprovadas pelo FDA para uso em adultos e elas não são equivalentes.
    • Existem três ELs aprovadas pelo FDA para uso em pacientes neonatais e pediátricos e elas não são equivalentes.
    • As misturas de ELs contém menores quantidades de óleo de soja e, adição de óleo de peixe, TCM e óleo de oliva. Apenas um produto é composto por 100% óleo de peixe.
    • Cada apresentação de EL (ex.: 100% óleo de soja; TCM/ TCL; 100% óleo de oliva; 100% óleo de peixe; óleo de soja, TCM, oliva e peixe) é única em diversas maneiras incluindo, mas não apenas a:
      • Indicação de uso para pacientes neonatais, pediátricos e adultos
      • Conteúdo de ácidos graxos
      • Dose necessária para suplementar adequadamente os ácidos graxos essenciais (vide recomendações da ASPEN)
      • Compatibilidade e estabilidade na NP.

 

  • As bolsas industrializadas multicompartimentadas de NP são prontas para a administração no paciente⁸´⁹.
    • MCB-NP** não são prontas para a administração; as câmaras precisam ser ativadas (misturadas) num ambiente estéril antes da administração.
    • As MCB-NP NÃO são uma NP completa. Vitaminas e oligoelementos devem ser adicionados À MCB-NP antes das administração. ***

 

  • Qualquer combinação/ concentração de eletrólitos pode ser adicionada à MCB-NP¹⁰´¹¹.
    • Cada MCB-NP possui diferentes componentes que afetam a compatibilidade e estabilidade final.
    • Informações específicas sobre estabilidade e compatibilidade devem ser obtidas com os fabricantes antes da adição à MCB-NP, antes da administração. ***

 

 

**MCB – NP : multi chamber bags, bolsa com múltiplas câmaras.

 

Referência:

ASPEN/ 2023: Dispelling Myths About Parenteral Nutrition Use.

@American Society of Parenteral and Enteral Nutrition, 09/11/23.

In: https://www.nutritioncare.org/uploadedFiles/Documents/Guidelines_and_Clinical_Resources/PN_Resources/PN-Myths-Practice-Tool.pdf

 

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