A Emulsão Lipídica na Nutrição Parenteral: uso clínico do ômega-3
As emulsões lipídicas da “terceira geração” começaram a ser disponibilizados no Brasil a partir de 2004, possuindo em sua composição uma mistura de lipídios contendo o óleo de soja (TCL, ômega 6), óleo de coco (OC, fonte de TCM), óleo de oliva (OO, fornecendo ácidos graxos monoinsaturados, ômega-9) e óleo de peixe (OP, com alto teor de ômega-3).
A alta disponibilidade de ácidos graxos poliinsaturados (AGPIs) ômega-6 (n-6), presentes no óleo de soja, favorece respostas pró-inflamatórias, pró-trombóticas e imunossupressoras, já a oferta de AGPIs ômega-3 (n-3), presentes no óleo de peixe, age de maneira oposta e, favorece respostas anti-inflamatórias, antitrombóticas e imunológicas mais eficientes. Sendo assim, a maior oferta de AGPIs n-3 (OP), especialmente o eicosapentaenoico (EPA) e o docosahexaenóico (DHA), pode melhorar a razão de n-6 : n-3.
A Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE/ BRASPEN), baseada nas revisões de recomendações de diretrizes internacionais, publicou um posicionamento favorável ao uso clínico de ômega-3 (ω-3 ou n-3), por via parenteral.
O foco da revisão e recomendações da Sociedade foi baseado nas pesquisas sobre a suplementação de EPA e DHA na nutrição parenteral (NP), para pacientes com quadros inflamatórios. Confira as principais orientações.
Recomendações para o uso de ômega-3 na NP
As ELs contendo óleo de peixe, comercialmente disponíveis, podem possuir em sua composição apenas o OP (100%) ou se tratar de ELs mistas, contendo o óleo de peixe combinado com outras fontes lipídicas.
A recomendação de n-3, via NP, nas emulsões lipídicas é de 0,1 a 0,2 g/ kg/ dia.
A redução no tempo de internação em UTI e/ ou hospital e, o menor uso de antibióticos, foram associados ao uso de EL contendo n-3, gerando maior economia de recursos financeiros hospitalares.

Nota: a EL OO1 encontra-se disponível apenas nas bolsas multicompartimentadas, prontas para uso, da Baxter para Pediatria e adultos. As suas fontes lipídicas são o óleo de soja e o óleo de oliva, não possuindo o óleo de peixe (n-3).
Na Pediatria
As ELs são importantes fontes de AGs essenciais e de calorias. A introdução precoce da EL, no 1º dia de vida, é indicada com segurança e eficácia, pois auxilia na melhora do balanço energético e na retenção nitrogenada, minimizando a desnutrição precoce do recém-nascido pré-termo (RNPT).
Em RNPT, as ELs contendo óleo de peixe (n-3) resultam em atenuação da resposta inflamatória e melhora dos níveis plasmáticos e eritrocitários dos ácidos graxos de cadeia longa, com melhor oferta para o desenvolvimento do cérebro e da retina.
Este aspecto é importante nos RNPT com insuficiência intestinal decorrentes de enterocolite necrosante, gastrosquise e dismotilidade que necessitam NP em longo prazo.
Na Doença grave
O uso do n-3 na NP pode atenuar as complicações frequentes em pacientes criticamente enfermos, como hiperglicemia, comprometimento hepático e trombose, devido ao seu efeito anti-inflamatório e antitrombótico.
- Pacientes em estado crítico: recomenda-se ELs contendo exclusivamente o óleo de peixe, a fim de promover a melhor modulação da resposta imunológica.
Na Disfunção hepática
As ELs fazem parte da terapia nutricional dos pacientes com insuficiência intestinal. Na NP de longa duração, as ELs contendo n-3 devem ser preferidas, com o intuito de reduzir o risco de lesão hepática e outras complicações.
No Câncer
O uso de EL contendo n-3 é considerado seguro e as vantagens incluem a redução da caquexia, manutenção da massa magra, estímulo ao apetite e ganho de peso, melhora na qualidade de vida e melhores desfechos pós-cirúrgicos.
Sugere-se a suplementação de 2,0 a 2,2 g/ dia de EPA e 1,5 g/ dia de DHA, por um período superior a quatro semanas.
No Cuidado perioperatório
No paciente cirúrgico, recomenda-se uma nutrição imunomoduladora, ou seja, contendo o n-3, com o intuito de obter uma melhor relação n-6 : n-3. O objetivo é buscar uma resposta inflamatória adequada no período pós-trauma.
O uso de ELs ricas em n-3 pode ser interessante para pacientes cirúrgicos hiperdinâmicos ou estáveis com sepse, principalmente devido à menor incidência de hipertrigliceridemia.
Contraindicação ou efeito adverso
A alergia ao óleo de soja, oliva, peixe e/ ou amendoim é a contraindicação mais comum para o uso de EL contendo n-3.
A SBNPE/ BRASPEN afirma que não há relatos nem evidências, em relação à efeitos adversos, que não estejam relacionados à alergia, desde que se respeite a dose máxima recomendada de EL:
. 1,5 g/ kg/ dia de EL e
. 0,1 e 0,2 g/ kg/ dia de OP (n-3)
Quando se trata de recuperação muscular, a SBNPE/ BRASPEN alerta que, apesar de existirem estudos que o indiquem como estratégia para prevenção e perda de massa muscular, ainda não há um consenso para indicar o uso de n-3 via parenteral, por falta de evidências robustas
Para a NP de pacientes críticos ou cirúrgicos sem função intestinal, pode haver alteração de enzimas hepáticas e/ ou fosfatase alcalina em 1,5 a 3,0 vezes acima do normal. Recomenda-se, sempre que possível, a utilização da nutrição enteral concomitantemente. Se esta não for viável, deve-se utilizar a EL com OP.
Referência:
- CASTRO, Melina Gouveia et al. Posicionamento BRASPEN sobre o uso clínico de ômega 3 via parenteral. BRASPEN J 2022: 119-38.