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Nutrimed

Segurança no manejo da nutrição parenteral em bolsa multicompartimentada (NP-BMC)

A Nutrição Parenteral (NP) é uma terapia de suporte vital de alta complexidade, indicada para pacientes impossibilitados de receber os nutrientes adequadamente pela via oral ou enteral. Devido à sua composição e aos riscos intrínsecos a sua utilização, a NP é classificada como um medicamento de alta vigilância, exigindo protocolos rigorosos para a mitigação de erros que possam comprometer a segurança
do paciente.

Na assistência farmacêutica, a NP pode ser apresentada de duas formas:

 

1. Formulação Individualizada: Manipulada de acordo com as necessidades metabólicas específicas do paciente.

2. Bolsas Multicompartimentadas (NP-BMC): Soluções industrializadas e padronizadas que mantêm os macronutrientes separados em câmaras
(geralmente 2 a 3).

 

Embora as NP-BMC estejam submetidas às diretrizes gerais de segurança aplicáveis a terapia de nutrição parenteral, apresentam especificidades críticas que as diferenciam das preparações manipuladas e, demandam atenção em todas as etapas de sua utilização.

 

O artigo este mês apresenta um resumo das recomendações publicadas em dezembro de 2025, resultado do trabalho conjunto da Sociedade Americana de Nutrição Parenteral e Enteral (ASPEN) e o Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos (ISMP). O consenso de recomendações sobre o uso de Bolsas Multicompartimentadas de Nutrição Parenteral (NP-BMC) foi elaborado a partir de uma reunião com diversas partes interessadas do setor saúde, e abrange o uso das NP-BMC na:

 

  • Gestão Clínica: Prescrição, revisão e análise técnica da prescrição.
  •  Processamento Farmacotécnico: Preparo, rotulagem e integridade final;
  •  Prática Assistencial: Administração segura e monitoramento do paciente.
  •  Continuidade: Transição de cuidados entre diferentes níveis de assistência.

Enquanto o ISMP focou na publicação das declarações do consenso voltadas à segurança, a ASPEN disponibilizará no Journal of Parenteral and Enteral Nutrition um detalhamento aprofundado sobre os métodos e a fundamentação científica que sustentam cada recomendação. Este resumo busca facilitar o acesso a essas informações essenciais para a prática clínica diária, promovendo a segurança do paciente e a excelência na terapia nutricional parenteral.

 

RECOMENDAÇÕES SOBRE O USO DE BOLSAS MULTICOMPARTIMENTADAS DE NUTRIÇÃO PARENTERAL.

 

Geral

 

. Terminologia: Deve-se utilizar o termo Bolsa Multicompartimentada de Nutrição Parenteral (NP-BMC).

– Evitar “bolsa pronta para uso” (premixed, "pré misturada"), pois pode levar a erros, como a falha na ativação de compartimentos da bolsa ou na adição de aditivos prescritos.

. Populações Recomendadas: A critério médico e com indicação adequada, para adultos e pacientes pediátricos mais velhos, cujas metas nutricionais possam ser atingidas por elas.

. Populações Não Recomendadas:

– Neonatos prematuros e a termo;

– Pacientes pediátricos que necessitam de aminoácidos condicionalmente essenciais na NP;

– Pacientes que necessitam de NP de longo prazo para os quais a NP-BMC não consegue atender às suas metas nutricionais;

– Pacientes com erros inatos do metabolismo;

– Pacientes com necessidades altamente individualizadas de fluidos, eletrólitos e/ou macronutrientes e,

– Pacientes com hipersensibilidade a qualquer componente do produto de NP-BMC.

 

Importante: Ter planos de contingências para os períodos de escassez do produto no mercado e crises de emergência.

 

. Seleção de Produto: Considerar o contexto das necessidades de todos os pacientes que necessitam de NP na instituição. Deve ser desenvolvido um programa sistemático que forneça uma variedade de formulações de NP-BMC.

. Decisão Clínica: Aplicar literatura científica e dados de erros para avaliar os riscos e benefícios entre a NP-BMC e a NP manipulada, considerando cada paciente e ambiente.

. Notificação de Erros: Documentar erros e situações de quase erro (near misses) em todas as etapas do processo (prescrição, preparo, administração etc.).

. Treinamento: Fornecer treinamento inicial e anual, além de avaliações de competência, para todos os profissionais envolvidos no processo de uso da NP-BMC.

. Indústrias, o que pode melhorar na segurança: Os fabricantes devem considerar o fornecimento de uma variedade mais ampla de formulações de NP-BMC para atender às necessidades de pacientes mais diversos. E, considerar realizar uma análise de engenharia dos fatores humanos, para as novas formulações de NP-BMC, antes da introdução no mercado (ex.: garantir que a embalagem e a rotulagem sejam bem diferenciadas em relação a formulações de aparência similares, incluir código de barras digitalizável, verificar a facilidade de uso e ativação dos compartimentos).

 

Prescrição e Revisão:

 

. Funcionalidades do Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP): O sistema deve incluir suporte à decisão clínica, como checagem de faixa de dose, compatibilidade, alertas de terapia duplicada, limites de osmolaridade e concentrações máximas para vias centrais vs. periféricas.

. Travas de Segurança: Devem existir avisos (soft warnings) e bloqueios obrigatórias (hardstops) para alertar quanto aos limites de dose, taxa de infusão, solubilidade de cálcio e fósforo e osmolaridade ou, na omissão de um componente essencial (ex.: prescrever NP-BCM SEM
eletrólitos e não prescrever eletrólitos). Revisar regularmente as justificativas de alertas ignorados (overrides) para determinar a adequação e melhorar a segurança das práticas com a NP-BMC.

. Modelos Padronizados: Criar modelos de prescrição que visem atingir metas proteico-calóricas com o mínimo de desperdício.

. Escolha da NP-BMC: Escolher a bolsa que exija a menor quantidade de manipulação para atender às necessidades nutricionais do paciente.

– As diferentes bolsas de NP-BMC contêm nutrientes e concentrações diferentes, e os profissionais devem estar cientes dos nutrientes específicos disponíveis nas bolsas de sua instituição.

. Aditivos Essenciais: Multivitamínicos e oligoelementos injetáveis devem ser administrados aos pacientes, pois não constam nas NP-BMC.

– Eletrólitos são essenciais para adicionar às NP-BMC que não contém eletrólitos e, as emulsões lipídicas são essenciais para pacientes que recebem NP-BMC sem lipídios, a menos que haja contraindicação ou justificativa específica para evitá-los.

. Volume: Calcular o volume necessário para fluidos e nutrientes, que pode ser inferior ao volume total da bolsa.

. Quantidade de nutrientes: Utilizar ferramentas e recursos para determinar as quantidades exatas de aminoácidos, glicose, emulsão lipídica (se adicionada), eletrólitos e aditivos que o paciente receberá com base no volume prescrito.

. Identificação: Incluir nome comercial e genérico da NP-BMC para evitar erros de seleção.

– Indicar claramente se as quantidades de aditivos prescritos, incluem as quantidades já contidas na NP-BMC.

– Indicar claramente na prescrição o volume a ser infundido, a taxa e a duração da infusão.

– Se a bolsa inteira de NP-BMC não for infundida, indicar claramente que a solução restante deve ser descartada.

. Verificação: Um farmacêutico deve verificar a compatibilidade, estabilidade e a correção das quantidades administradas com base no volume.

 

Armazenamento, Preparo e Rotulagem

 

. Armazenamento: As NP-BMC inativadas devem ser armazenadas na farmácia, longe de bolsas semelhantes e de acordo com informações do fabricante. Evite armazenar em áreas de cuidado ao paciente (como armários automatizados).

. Preparo da NP-BMC, pontos críticos:

– A farmácia deve ativar as câmaras da NP-BMC e manipular os aditivos em um ambiente estéril antes de dispensar para as unidades assistenciais.

– Utilizar sistemas de gerenciamento de preparo de injetáveis, código de barras e análise gravimétrica para detectar erros de dosagem.

– Um farmacêutico deve revisar a bolsa final de NP-BMC com os aditivos, antes da dispensação.

– No ambiente domiciliar, a NP-BMC deve ser preparada de acordo com as instruções do fabricante.

. Aditivos: Os componentes adicionados à NP-BMC, incluindo macronutrientes e micronutrientes adicionais, devem ter dados de estabilidade e compatibilidade que comprovem sua segurança.

. Aditivos Essenciais: Multivitamínicos e oligoelementos injetáveis devem ser administrados aos pacientes, pois não constam nas NP-BMC.

. Rotulagem: A farmácia deve adicionar um rótulo a NP-BMC, que inclua o nome comercial e genérico do produto, o volume total da bolsa, a taxa de administração, o volume a ser infundido, a quantidade de cada componente a ser infundido (incluindo aditivos) e a data de validade da mistura final (beyond-use date).

– O rótulo deve indicar claramente se o volume excedente deve ser descartado.

– Uma vez ativada a bolsa, a data de validade do fabricante na NP-BMC não é mais válida, independentemente da adição de aditivos.

– Os profissionais podem considerar cobrir o código de barras e a data de validade do fabricante na bolsa de NP-BMC, para estimular a leitura do código de barras no rótulo da farmácia (com a data de validade do uso final).

 

Administração

 

. Segurança na Beira do Leito: Otimizar o uso de tecnologia e de fluxos de trabalho seguros para administração da NP-BMC, incluindo garantir que a bolsa seja ativada e o volume prescrito seja infundido em no máximo 24 horas.

. Descarte: Se a bolsa não for infundida integralmente, a solução restante deve ser descartada.

 

Documentação, Monitoramento e Transição de Cuidados

 

. Monitoramento: Se a bolsa completa de NP-BMC não for infundida, para garantir que os pacientes recebam as quantidades adequadas de nutrientes prescritos, considerar se a NP manipulada pode atender melhor às necessidades nutricionais.

– Se o paciente não receber a bolsa completa, monitorar quanto a deficiências nutricionais e complicações medicamentosas, e realizar a suplementação adicional de vitaminas, oligoelementos, eletrólitos e outros aditivos, conforme aplicável.

. Transição de cuidados segura: Revisar a prescrição de NP, antes da transferência entre setores, para garantir que os produtos estão disponíveis e a prescrição é clara, viável, segura e atende às necessidades do paciente.

– Os profissionais podem realizar a transição entre tipos de NP (ou seja, NP-BMC e NP manipulada) durante a mudança de ambiente de cuidado para reforçar a disponibilidade, viabilidade e segurança.

– Pacientes em Home Care e/ou seus cuidadores devem receber treinamento específico relacionado ao armazenamento seguro, preparo asséptico, administração e monitoramento das NP-BMC.

– Ao alternar entre NP manipulada e NP-BMC, os profissionais devem estar cientes dos componentes distintos dos produtos, preocupações de segurança e recomendações de prática para cada um, e tomar as medidas adequadas para garantir a entrega segura e adequada de
nutrientes ao paciente.

 

Nota: A Portaria n o 272, de 08 de abril de 1998, SNVS/MS, proíbe a aditivação às NP-BMC.

– No Brasil, os aditivos prescritos (ex.: macronutrientes, eletrólitos, vitaminas e oligoelementos) devem ser administrados em infusões em paralelo a NP-BMC. As bolsas de NP são invioláveis, seja a industrializada ou a manipulada. É proibido aditivar as NP-BMC.

Referências:
. The Institute for Safe Medication Practices (ISPM)/ American Society for Parenteral and Enteral Nutrition (ASPEN)
Multi-chamber Bag Parenteral Nutrition Consensus Statements. Practice Tool, ASPEN, dec/ 2025. In:

https://nutritioncare.org/wp-content/uploads/2025/12/ISMP-ASPEN-MCB-PN-Recommendations.pdf

. Portaria n o 272, de 08 de abril de 1998, SNVS/ MS.

 

 

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