A alimentação de lactentes de 6 a 12 meses de idade, hospitalizados e/ ou em uso de via alternativa: posicionamento da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral.
O risco do uso do leite de vaca para alimentação de lactentes com enfermidades agudas ou crônicas e/ ou, que necessitam de uma via alternativa para alimentação, foi publicado em 2024, no alerta para pediatras e nutricionistas, pelo Comitê da Infância e Adolescência da SBNPE.
Tendo como base o parecer da Organização Mundial de Saúde, referente a alimentação complementar em lactentes entre 6 e 12 meses de idade não amamentados e, em evidências científicas atuais, surgiu a necessidade de aplicar as recomendações para essas populações específicas.
As crianças com condições clínicas especiais, incluindo as hospitalizadas, são diferentes das crianças saudáveis.1 São pacientes que podem apresentar alterações metabólicas e fisiológicas, necessidades nutricionais específicas e opções alimentares restritas, que exigem uma abordagem diferenciada em relação à alimentação.1
O período de alimentação complementar é muito importante na formação dos padrões alimentares e para o crescimento saudável, contribuindo para a prevenção de deficiências nutricionais. Quando lactentes são hospitalizados, costuma-se observar a baixa aceitação da alimentação oral, especialmente para os que estão no início da introdução alimentar.1
O objetivo da terapia nutricional, para lactentes em circunstâncias clínicas especiais, é o de fornecer energia, macro e micronutrientes de acordo com as suas necessidades, sendo fundamental para o prognóstico favorável a curto, médio e longo prazo.1
O leite de vaca
Segundo o artigo, a utilização do leite de vaca na dieta oral ou enteral, em lactentes vulneráveis, pode resultar em prejuízos nutricionais significativos. Portanto, não pode ser considerado como parte da terapia nutricional, por não fornecer macro e micronutrientes em quantidades adequadas para atender as necessidades de lactentes de 6 a 12 meses, não amamentados e em condições clínicas especiais.1
O leite de vaca possui quantidades insuficientes de ácidos graxos essenciais,
vitaminas A, D, E e C, ferro, zinco e alto teor de proteína, sódio e potássio.1
Além das considerações nutricionais, é fundamental avaliar a qualidade microbiológica, que varia muito entre os tipos de leite de vaca pasteurizado (A, B ou C), devido as exigências diferenciadas para ordenha, armazenamento e transporte.1
O fornecimento de leite de vaca pode representar um risco aumentado de contaminação, especialmente em crianças desnutridas ou com condições clínicas crônicas, cujo sistema imunológico pode estar comprometido.1
A nutrição Enteral: definição e exigências microbiológicas da legislação.
A definição de Nutrição Enteral (NE), segundo a RDC no 503/ 2021:
“Alimento para fins especiais, com ingestão controlada de nutrientes, na forma isolada ou combinada, de composição definida ou estimada, especialmente formulada e elaborada para uso por sondas ou via oral, industrializado ou não, utilizada exclusiva ou parcialmente para substituir ou complementar a alimentação oral em pacientes desnutridos ou não, conforme suas necessidades nutricionais, em regime hospitalar, ambulatorial ou domiciliar, visando a síntese ou manutenção dos tecidos, órgãos ou sistemas”.
A RDC n° 503, de 27 de maio de 2021 do Ministério da Saúde fixa os requisitos mínimos exigidos para a terapia de nutrição enteral.
Consta nesta legislação, a exigência da avaliação microbiológica, que deve ser realizada em amostra representativa das preparações em uma sessão de manipulação, com o padrão microbiológico antes da administração de:
< 103 UFC)/mL de microorganismos aeróbios mesófilos
< 103 UFC/g de Bacillus cereus,
< 103 UFC/g de Clostridium perfrigens,
< 3 UFC/g de coliformes,
< 3 UFC/g de Escherichia coli,
< 3 UFC/g de Sthaphylococcus aureus e
. Ausência de Salmonella sp, Listeria monocytogenes e Yersinia enterocolitica.
Dieta enteral artesanal e a preparação láctea
A incerteza da quantidade exata de calorias e nutrientes fornecidos, a menor tolerabilidade ao maior volume da dieta (necessário para atingir as recomendações nutricionais), o risco microbiológico e, as complicações relacionadas às sondas, como obstrução ou dano material (devido ao diâmetro interno pequeno das sondas utilizadas), são alguns dos principais riscos associados a utilização de dietas artesanais e preparação láctea.
A oferta de dieta enteral artesanal (alimentos liquidificados), incluindo preparação láctea, pode trazer riscos a estes lactentes,
que utilizam como via de administração sonda nasoenteral, gastrostomias ou jejunostomias.1
Fórmulas Infantis
Para pacientes em internação hospitalar e em uso de dieta por vias alternativas de alimentação, recomenda-se o uso de Fórmulas Infantis como dieta enteral, pois atendem aos requisitos específicos de composição de macro e micronutrientes estabelecidos pelo Codex Alimentarius.1
As Fórmulas Infantis são capazes de atender às necessidades nutricionais de lactentes em situações especiais, que têm capacidade limitada de ingerir, digerir, absorver ou metabolizar alimentos convencionais, oferecendo uma alternativa segura e nutricionalmente adequada ao leite de vaca não modificado.1
Recomendação SBNPE:
A Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE) recomenda fortemente a utilização de fórmulas infantis como dieta enteral em lactentes dos 6 aos 12 meses de idade hospitalizados ou em condições clínicas especiais, independente da via de alimentação, visando garantir uma terapia nutricional segura e eficaz para esses pacientes vulneráveis.