22 9971-55649

Back To Top

Nutrimed

Nutrição Parenteral: Individualizada (Manipulada) vs. Pronta para Uso (Industrializada) – Uma Análise Abrangente – II

Individualizando a NP Pronta para Uso e Análise de Riscos

A “individualização” das formulações de NP prontas para uso foi tema de um recente Webinar da SBNPE/BRASPEN (maio/2025). Especialistas apresentaram e discutiram condutas de ajustes através de infusões separadas, “individualizando a bolsa pronta” na prática clínica e, a forma como estas adequações eram cobradas através da prescrição de medicamentos. Esta informação é importante na análise de custo do tipo de NP a UH deseja padronizar, uma vez que os nutrientes prescritos como medicamentos e administrados a parte, tem custos e devem ser considerados na comparação entre as duas apresentações de NP.

É importante considerar que a prescrição de NP, seja manipulada ou pronta para uso, exige uma equipe especializada em terapia nutricional para calcular corretamente as quantidades dos nutrientes5, avaliar a compatibilidade dos componentes6, realizar as manipulações e administrações de maneira segura e, monitorar o paciente.4 Estudos mostram uma lacuna significativa de conhecimento entre médicos5 e farmacêuticos não especialistas.2,3,6

 

Riscos da NP Pronta para Uso (Industrializada)

Apesar de ser vista como uma opção mais simples e conveniente, a NP pronta para uso também apresenta riscos, muitas vezes subestimados. O ISMP (Institute for Safe Medication Practice) publicou artigos em 2022 e 2025 alertando sobre os riscos do uso de NP pronta para uso.2,3

 

  • Erros Relacionados à Seleção e Adequação da Bolsa:
    • Composição Fixa: pode não atender às necessidades nutricionais específicas de pacientes mais complexos, como prematuros de muito baixo peso ou pacientes com restrição hídrica, cirúrgicos, cardíacos ou disfunções renais/hepáticas. O médico precisa “adequar” a prescrição à bolsa disponível.
    • Necessidade de Aditivos: como a adição de componentes à bolsa pronta para uso é proibida pela legislação brasileira, qualquer nutriente adicional (vitaminas, oligoelementos, eletrólitos específicos, aminoácidos extra) deve ser administrado em infusões separadas. Isso aumenta a complexidade, o número de manipulações pela equipe de enfermagem no leito do paciente e o risco de:
      • Erros de dosagem: na preparação e administração dos aditivos.2
      • Incompatibilidades:  com mais infusões intravenosas.2
      • Contaminação: maior número de conexões e manipulações no acesso venoso, aumentando o risco de contaminação.2
      • Erro no uso de filtros: um caso reportado citou embolia devido à infusão inadequada de lipídios em Y, sem filtro, em uma tentativa de “adequação”.2
  • Identificação e Armazenamento:
    • Aparência Similar: bolsas prontas para uso com composições ligeiramente diferentes podem ter embalagens muito semelhantes, levando a erros de compra, dispensação e administração.2 Ex.: confusão entre Clinimix E 4.25/10 (com eletrólitos) e Clinimix 425/10 (sem eletrólitos).2
  • Desafios na Administração:
    • Não Ativação dos Compartimentos: a falha na ativação dos compartimentos da bolsa (rompimento dos lacres internos), resultando na infusão de apenas um ou dois compartimentos, privando o paciente de nutrientes essenciais.
    • Velocidade de Infusão Incorreta: alteração na velocidade de infusão para “acelerar” a administração ou infundir a mesma bolsa por mais de 24 horas, o que é proibido, aumentando o risco de desequilíbrios metabólicos e contaminação.2
    • Uso de Acesso Venoso Inadequado: prescrição de uma formulação para acesso central, administrada por acesso periférico, o que pode causar complicações como flebite.2
    • Registros: falta de processos claros de documentação dos insumos aditivados.2
  • Impacto do Desabastecimento:
    • A dependência de produtos industrializados pode ser um risco em tempos de desabastecimento, forçando a equipe a adaptar soluções, aumentando os riscos de erros de medicação e descontinuidade do tratamento.2

As preocupações de segurança com a NP pronta para uso incluem a impossibilidade de personalizar o volume em pacientes com restrição hídrica, desafios com concentrações em pacientes com edema ou complicações pulmonares/cardíacas, desabastecimentos frequentes, confusão sobre o uso de filtros em linha e riscos de troca de bolsas similares.2,3

 

Conclusão

A NP, seja manipulada ou industrializada, é uma terapia essencial à vida. A divulgação e disseminação de informações claras sobre as indicações, formas de uso e riscos de ambas são fundamentais para a segurança do paciente e o sucesso da terapia nutricional.

Não é mais correto utilizar argumentos baseados em riscos passados da NP manipulada. As atuais bolsas de NP individualizadas/manipuladas passaram e continuam passando por modernizações e inovações, sendo produzidas por empresas e equipes altamente especializadas.

O objetivo da equipe multiprofissional de terapia nutricional deve ser a melhor opção de NP para cada paciente e, com o custo adequado. É crucial que a escolha entre a NP pronta para uso e a NP manipulada seja baseada nas necessidades clínicas individuais e numa avaliação completa de custos e benefícios, e não apenas em uma visão parcial.

 

Referências:

1. Modern PN Practice Leaves The ‘Wild West’ Behind. By Milles Star. In:

https://www.pharmacypracticenews.com/Clinical/Nutrition/Article/05-25/Pharmacist-Guidelines-Parenteral

2. Institute for Safe Medication Practices (ISMP). Survey exposes risks with custom and multi-chamber bag parenteral nutrition – part I. ISMP Medication Safety Alert! Acute Care. 2025;30(5):1-5.

3. Institute for Safe Medication Practices (ISMP). Action needed to address risk with custom and multi-chamber bag parenteral nutrition – part II. ISMP Medication Safety Alert! Acute Care. 2025;30(6):1-4.

4. Portaria no 272, de 08 de abril de 1998, SNVS/ MS. Regulamento técnico para as práticas de nutrição parenteral.

5. CONECT study: A prospective observational study on comparative nutritional efficacy in critically ill patients receiving ready-to-use vs. compounded parenteral nutrition. Toledo, D, et al. In Clin Nutr Open Science, August 2025. 62: 139-155.

6. Parenteral nutrition compatibility and stability: A comprehensive review. Boullata J, Mirtallo J et al. JPEN J Parenteral Enteral Nutr 2022;46:273-299.

Post a Comment